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AMADEU TANAJURA MACHADO BIOGRAFIA - LEITURA ABAIXO CAPITULO I Ela lançava o terço na mão esquerda, os olhos acompanhavam as 59 contas redondas de pedras. Na primeira dezena de contas, uma pausa: aparece a cruz. Seu semblante se depara com um braço a sua frente. “Amadeu, meu filho, o tempo me fez ver o homem que se tornou. Lembro do batismo que o padre te concedeu aqui nesta terra que sustenta seu corpo. Neste tributo, almejo sempre seu regresso. Lembre-se da nossa mangueira sagrada.” A nostalgia de sua mãe Antônia Francisca afirmava os olhos da lembrança. Olhos entre dois entes vivos, uma que embarrigou o outro dentro, e que agora, suplica um pacto de nascimento. Amadeu, na sua infância longínqua, leva o pensamento para a Cachoeira Véu das Noivas, em Livramento, onde ficava ouvindo o ronco das águas. “Mãe, eu prometo. Enquanto puder, voltarei para Livramento”. Era uma manhã do dia 16 de junho, ouvia-se o padre falando na casa da família Tanajura Machado: “Nossa Sra. do Livramento! É um menino?” A parteira, um pouco melada de sangue, diz sorrindo: “É um menino saudável e veja que o pai Alfredo já chamou-o de Amadeu.” A mãe Antônia põe as mãos nos olhos, fazia para provar que o amor surgia. Ela estende as mãos e debruça o filho no peito. O olhar de Antônia penetra o de seu nascido, ela fragilizada balbucia: “Meu filhooo!” O Padre Manuel Igino continua: “Amadeu, neste instante, dou-te a salvação.” A mãe Antônia pergunta: “Salvação de quê?” Ele responde: “Eu liberto o pequeno Amadeu dos males da vida e dou-lhe proteção divina.” O ano era 1927, na Vila Nossa Sra. do Livramento, a mais antiga da região, fundada em 1724, inicialmente vinculada à cidade de Rio de Contas, mas emancipada em 1920. A mãe de Amadeu, Antônia, no dia seguinte já se dispunha a caminhar pela casa, situada na fazenda Vale da Boa Sorte. Uma parida forte que já convivia na casa com 3 meninos e uma menina, filhos do primeiro casamento de seu marido Alfredo com outra mulher, que fez a passagem em 1920. Antônia a conhecia bem, desde do nascimento, a chamava de irmã Ester. Digo a verdade, irmã de sangue. As duas irmãs, por ideia do pai Francisco, casaram-se com o mesmo homem, Alfredo. Elas não moravam na mesma casa com ele, pois Ester já tinha partido para uma nova missão, foi ao encontro de Nossa Sra. deixando com o pai, os 4 filhos órfãos de mãe. E Antônia Francisca mãe de Amadeu? Ela por amor ou destino, casou-se com Alfredo e acolheu os filhos de Ester com ele. Antônia sentia algo talvez não revelado. Nesse silêncio interior, ela deu à luz a Amadeu que inicia sua convivência com os filhos de seu pai com Ester: Pompílio, Reginaldo, Francisco e Francisca. O pequeno Amadeu, um pouco tímido, se afeiçoa por Reginaldo e vive até os seis anos de idade com ele. Sua mãe e os cinco irmãos que já tinham nascido do casamento de seu pai com sua mãe Antônia. Todavia, a mudança aconteceu. Amadeu com a sua genitora e seus cinco irmãos de sangue foram morar na fazenda Pinto com o Pai Alfredo. A sua mãe continuou dando à luz e a essa altura, já tinham nascido mais cinco filhos, dois meninos e três meninas. Amadeu, o primogênito, viu nascer no total de dez irmãos e irmãs: Salvador, Eutávia, Afrânio, Cessy, Alfredina, Sônia, José, Bertela, Marisa, Gustavo. Na fazenda Pinto, o pai Alfredo comentava que queria conhecer o presidente do Brasil Washington Luís, do PRP (Partido Republicano Paulista), que governou o país em 1927 durante a primeira República no Brasil. Alfredo parece que adivinhando a política do país, perdeu a oportunidade com a revolução de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu a presidência. O fazendeiro Alfredo tinha três fazendas, o que lhe dava destaque em Livramento, pois os donos de terras eram bem vistos pela conquista e manutenção do patrimônio, nada fácil, diga-se de passagem. Uma andada a cavalo, poderia ser a última, uma emboscada poderia levá-lo ao sumiço, daquele que nenhuma alma viva, jamais vê. No entanto, Alfredo viajava muito e mantinha seu patrimônio material e familiar. Na política do país, entrava a República Nova. Getúlio Vargas, em 1934, é eleito por voto indireto, presidente. Porém, Antônia, nessa data de votação, ficou agitada, afinal era mãe de onze brasileiros, mesmo assim, a ela e a todas as mulheres era negado o direito de votar e ser candidata ao parlamento brasileiro. Antônia questionava consigo mesma: “Sem as mulheres, não há país”. Dizia ainda: “Talvez seja a tentativa de jogar a sombra em quem tem a luz.” Mas, um dia, suas preces foram atendidas, em 1932, foi dado `as mulheres o direito de votar. Mas Antônia adiava o uso de seu vestido para ir às urnas. Ela saldava o decreto: No. 21.078/1932, um avanço eleitoral, mas via-se o Estado Novo como um regime autoritário estabelecido por Vargas. Antônia sempre tocava no seu vestido e pensava: “Pra que um direito se não posso usá-lo?” “Pra que um filho se não posso amá-lo?” “Getúlio tinha mãe?”. Digo-lhes que sim. Chamava-se Cândida e vinha lá da cidade de São Borja(RS), cidade banhada pelo rio Uruguai que desemboca na Argentina, onde também as mulheres não podem votar. Antônia dizia: “Eu teria que ir longe, lá no Equador. Lá as mulheres já têm esse direito desde 1929, graças ao presidente Isidoro Ayora, visto que sendo médico, há sensibilidade no olhar. Antônia educava onze filhos seus e quatro da irmã Ester com seu marido Alfredo. O pequeno Amadeu era mais afeiçoado com a mãe Antônia, tendo em vista que o pai viajava muito. Amadeu teve uma infância na natureza, aquela que a fazenda oferecia. Desde cedo, já levava o gado para o pasto. O restante do tempo, ficava na fábrica de cachaça, onde a cana era levada e cortada por alguns funcionários. Amadeu gostava de ver o processo de estocagem, ficando lá no reservatório de madeira. Ele ia todos os dias ajudar com o corte da cana e sempre permanecendo no alambique com o vaqueiro Artur, que o chamava para ajudá-lo na segurança do espaço. A amizade florescia entre os dois. Amadeu pouco ficava na casa da fazenda. Seu amigo Artur era seu protetor. Um dia o vaqueiro falou: “Amadeu, já está tarde, hoje, vamos dormir em cima do bagaço de cana.” Na manhã seguinte, Amadeu meio assustado, disse: “Veja no chão, pegadas do touro Ideal”. Durante meses, ele esperou ver o touro passar por cima dele e Artur. Esse dia nunca aconteceu. No outro dia cedo, Amadeu acordou e nenhum rastro do touro Ideal pulando por seu corpo. Essa manhã estava com neblina, a natureza e os animais interagiam dando sinais de mudanças. Nesse dia, Amadeu chegou tarde no alambique. Lá não viu ninguém. Achou estranho. Saiu correndo ao encontro de respostas. De repente, ouviu um som alto, não era o vento uivando. Era algo peculiar. Todavia, o que seria isso de tão luminoso? Continuou correndo entre o canavial. Já estava ofegante, em desespero, caiu ao chão. A respiração anunciava o fim, não da sua vida, mas das canas alinhadas. O olhar dele fitava o céu, as costas molhadas de suor tocando a terra, era uma sensação rara, estava completamente sozinho. Ali pensava: “Eu preciso levantar”. Ele ouvia o som se aproximar. Mas continuava paralisado, seu único movimento era de suas mãos mexendo a terra úmida e fertilizada pelo rio Brumado, na base da Serra Geral, a 500 metros acima do nível do mar. Amadeu continuou deitado e olhando para as nuvens e com as mãos, cava a terra que antes viviam os índios Tupi-Guaranis. Amadeu apenas vira o rosto e alcança o olhar do gado passando. Os animais andavam em procissão, lentamente, uivando. Era o anúncio, presságio de sofrimento, Amadeu sentia que havia um pesar, algo iria acontecer. Ele empurra a terra, levanta e sacode a poeira que insistia em permanecer grudada em sua roupa. Em seguida, grita: “Artur, você está aí?” Mas o que avista são homens e mulheres caminhando. Um andar pausado, um passo dizia sim, outro passo dizia não. Amadeu começou a chorar, viu a sua frente `aquele que voltará ao encontro da paralisia, mas `aquela definitiva, que nem a mão mexe. Amadeu se junta à caminhada e o pensamento veio: “Quem deixará saudades? Quem parte para nunca mais beber um gole de cachaça?”. Subitamente, uma mão, toca sua camisa suja de terra, toca seu ombro. A voz sussurra ao seu ouvido: “O vaqueiro Manuel fazia 30 anos na labuta. Agora, segue por outros caminhos mais perto de Deus”. Amadeu guardou esse som dos animais de poder que Manuel ordenhava todos os dias. Amadeu vivia seu primeiro adeus, seu primeiro luto, ali tornava-se homem, ainda garoto, aprendia que se fazia cachaça para evitar o inevitável. O pai de Amadeu, seu Alfredo, dono do alambique, ficou avexado com o ocorrido. O adeus não é coisa simples, mexe com a alma de quem fica. Seu Alfredo chegando, na fazenda, reúne a família e comunica: “Vamos arrumar nossas coisas. A lida vai ser lá na fazenda Vale da Boa sorte.” Essas terras ficam também em Livramento, a alguns quilômetros de lá. Assim aconteceu, Alfredo e Antônia deixaram a fazenda com toda família e funcionários, todos a cavalo. Antônia tinha um cavalo branco, exclusivo para ela. Amadeu, nessa mudança para outra fazenda, era uma criança e deixava na lembrança parte de sua infância, deixava seus esconderijos e sabia que a Serra das Almas abrigava o novo morador Manuel, e esse, Amadeu respeitava pela lida, homem que até morto fazia o gado homenagear. A nova rota da família Tanajura Machado seguia por caminhos belos, mas de coragem. Amadeu estava a cavalo e passa pela cachoeira do Brumado. O barulho das águas se confundia com o som que ecoava em seus ouvidos, aquele som das vacas e touros clamando pelo corpo com olhos do descanso eterno que partia em procissão. Agora Amadeu partia avistando outra chegada. Via-se na nova fazenda de seu pai. O nome das terras parecia um presságio de bons sinais, chamava-se Boa Sorte. O pequeno Amadeu precisava de seu quinhão na tomba da estocada. Um garoto necessitava também daquele sentimento difícil de achar no pai que vivia na lomba do cavalo. Amadeu pensava: “Vou falar com meu padrinho Queno. Vou questionar o porquê de o amor de meu pai não chegar até mim.” Entretanto, a vida seguia e essa pergunta nunca chegou aos ouvidos do tio. A nova vida se apresentava a Amadeu. Seu pai contratou uma professora para os filhos, porém ele fugia para ficar junto à natureza. Seu pai então dizia: “Amadeu, você não quer estudar, então vai trabalhar”. Lá, Amadeu ia ao batente como auxiliar de pedreiro na construção da fábrica de cachaça. Ele partia com Artur, o moedor, e seu padrinho, o engenheiro Rodrigo Tanajura, o famoso Queno. Quando a casa de engenho ficou pronta, Amadeu passou a despontar cana e colocar na banca para moer. No pôr do sol, ele e Artur iam para o alto do mirante do sobradinho. Lá, contemplavam os patos em bandos. As fêmeas colocavam seus ovos em ocos de palmeiras mortas. O que mais atraia Amadeu era o som dos patos. Sabia que os animais se comunicavam através de sons. Os patos dormiam em silêncio, mas uma parte do cérebro ficava em vigília, a outra adormecia. Quando percebiam o perigo, escolhiam correr, nadar ou voar. Mas a noite surgia e os dois seguiam para destilação da cana. Um dia faltou água e para solucionar o problema, os dois desceram até a lagoa. O caminho era um breu iluminado em candieiro com bagaço de cana. Chegando no rego da lagoa, sentiam os pés tocando terrenos movediços. Todavia, iam na preferência da terra dura para consertar o caminho de barro que levava a água para o alambique. Amadeu ficou exultante, pois liberaram a passagem da água e voltaram para o alambique. Lá continuaram a produção de cachaça. Acabavam dormindo por lá mesmo. De manhã cedo, saiam em quatro carros de boi em direção a terceira fazenda de seu pai chamada “Várzea da Capela”, no Distrito de Dom Basílio. Amadeu saía com os vaqueiros e Artur, seu fiel escudeiro. A lida era com o gado e os carneiros que levavam até a fazenda. Amadeu descia do cavalo ansioso ao atento e chegava gritando: “Maria Rita, vim provar o requeijão”. Amadeu e ela tinham um pacto: o queijo só ia para a venda depois que ele aprovasse. Assim, ele ia sozinho `a cavalo com a carga de requeijão para comercializar na feira da cidade. FIM Autora – Patrícia Lume EM BREVE CAPÍTULO II

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